terça-feira, 5 de outubro de 2010

Viva a República (100 Anos)







Quando em 5 de Outubro de 1910, um movimento revolucionário triunfante precedeu a proclamação da República em Portugal, pondo termo à carreira da monarquia, a qual durara cerca de oito séculos, a Nação estava preparada para a aclamar entusiásticamente como um sinal de salvação e resgate. Esse resultado foi conseguido pela acção doutrinária e politica dos adversários das instituições monárquicas e pelos erros dos seus servidores. A primeira desenvolveu-se ao longo de meio século, dividido em dois períodos distintos, separados por uma profunda comoção nacional, o ultimato de 1890 com as suas repercussões.
Nas três décadas que o precederam os republicanos portugueses assumiram uma posição exclusivamente doutrinária. Acreditava-se, apesar dos claros indícios em contrário, que era possível modificar, num sentido satisfatório, a rota que o País seguia e ameaçava levá-lo a uma catástrofe irremediável. Apesar das vicissitudes sofridas, a Nação conservava intacta parte das suas energias ancestrais, embora a população vivesse em condições lamentáveis, roída pela lepra do alfabetismo e numa alarmante estagnação social e indiferentismo politico.
A incompatibilidade entre o País e a monarquia, que teve por epilogo a queda desta última, afirmou-se cada vez mais vigorosamente depois da morte de D. Luís (1889), soberano constitucional que procurou regular o seu papel pelas normas da Carta e pelo respeito pela sua letra. A anarquia mansa que levedou no seu reinado, somando-se a uma série de episódios externos que entre nós tiveram eco e projecção, continha os elementos de decadência do sistema de que aquele soberano foi representante e símbolo.
Seu filho D. Carlos, não se cingiu, como ele, ao desempenho das funções constitucionais que lhe estavam confiadas. As sucessivas tentativas ditatoriais, de que foi intérprete consciente as quais corresponderam a ensaios de engrandecimento do poder real com ostensivo menosprezo da vontade da Nação, mantiveram esta num estado de epilepsia intermitente que, agravando-se, acabou pelo rompimento definitivo. Quando D. Manuel II, com dezoito anos apenas, o substituiu (1908), a monarquia era uma sobrevivência insuportável que um sobressalto de energia popular fez ruir, perante a passividade das forças armadas que deviam defende-la e a fuga dos que nela ocupavam cargos de responsabilidade e direcção.
Entre 1880 e 1890, entre a comemoração do tricentenário de Camões e o ultimato inglês, o partido republicano identificou-se com as aspirações da Nação e tornou-se o seu único intérprete. Contra ele havia o Paço, com a sua camarilha, o governo, com os seus dependentes, o parlamento com as suas desordens, a politica com as suas intrigas, os partidos monárquicos com os seus escândalos. As elites, a burguesia, o operariado, a massa consciente e sã do País, de cujas reacções dependiam a vida e o futuro deste, ingressaram entusiásticamente nas fileiras republicanas. Nestas se consubstanciou, nos vinte anos seguintes ao ultimato, o espírito de renovação e desafronta que gerou o novo regime e o tornou inabalável dando-lhe a sua feição definitiva.
Nunca nesses vinte anos , os monárquicos puderam organizar uma manifestação popular. A agitação fictícia que, por vezes, tentaram produzir nas principais cidades do País, com destaque para Lisboa e Porto, degenerou em arruaças e motins. Num contraste eloquente, aquelas que o partido republicano organizou decorreram em perfeita ordem e a sua imponência impressionante exprimiu a fraternidade de ideias que identificou os que nelas tomavam parte e cujo numero se elevava a dezenas e mesmo centenas de milhares de individuos de todas as condições.
Nos ultimos anos do reinado D. Carlos e no efémero reinado do seu filho D. Manuel, o poder era uma ficção que se apoiava exclusivamente na força publica e vivia da repressão organizada. O poder, de facto, estava nas mãos dos dirigentes republicanos para os quais os representantes da autoridade mais de uma vez apelaram, pedindo-lhes que evitassem o agravamento de uma situação que se deteriorava à vista de todos. A decomposição da monarquia ameaçava gangrenar o corpo nacional e, para esse mal, a proclamação da República tornou-se um acto de redenção que se impôs urgentemente, mesmo aqueles que não acreditavam ou não confiavam nela, por não acreditarem ou não confiarem na vitalidade da Nação.
In: História da República - edição o Século 1963

1 comentário:

Jose Soares (cobrabtt) disse...

nDepois de ler atentamente o que escreves-te e também depois de ouvir os DOIS maiores PAPAGAIOS (PR (Cavaco Silva) e PM (José Socrates)deste país ocorre-me o seguinte:
Não achas a situação actual muito parecida com a de 1910?
A bagunçada que grassa, o desfalque organizado do dinheiro público (em fundações que não sabemos para que existem, nem para que servem) como o caso da Fundaçao da MÚMIA (Mario Soares). Como até o compadrio no arranjar taxos para novos Institutos Públicos ou até nomeações para cargos Internacionais (ver o caso de Portugal andar a tentar ser membro permanente do Conselho de Segurança da ONU), talvez para depois dar um cargo ao actual PM (José Socrates), como deram ao nobre Patriota Portugues chamado Durão Barroso na União Europeia, tudo vale. Também grassa, como na altura, a desigualdade social, as festas da classe dominante, como na altura as festas dos Marqueses, duques e elites de um País pobre e que não produz, nem cria riqueza para que tão elevados gastos de dinheiro se pratique.
Tem graça que este País tem épocas como estas (1910, 1926, etc) e também por estas épocas aparecem uns chicos espertos que vão ser os salvadores da Pátria (Salazares, Marios Soares) e como não podia deixar de ser agora temos 3 candidatos (Portas, Louça e Passos Coelho). Espero que não apareça um outro qualquer chico esperto a fazer uma revolução, mas sempre a pensar em manter os mesmos no Poleiro. Sinceramente acho que está na altura de começar a aparecer algo novo, que se dedique a punir exemplarmente os que desfalcam o erário publico, os que nada sabem fazer, mas que se metem na politica não para servir o País mas para servirem do País.
Digo-te que os actuais governantes são da minha faixa etária, não fizeram exames, pois na altura grassava o PREC (que eles utilizaram para beneficio próprio) que são os mesmos que ao tirarem "zero" no teste de Matematica ou Fisica, Ciencias, logo organizavam uma RGA (reunião Geral de Alunos) para sanear o professor. Por isso este País anda muito, muito mas mesmo muito mal, pois a classe governativa é a mais mal preparada do século.